08/07/2010
Subi o morro do Vidigal prá assistir meu amigo Guti Fraga e seu Campinho Show. Já fui ao Vidigal várias vezes, em ensaios, festas, visitas ao casarão do Nós do Morro, mas nessas quebradas, foi a primeira vez. Tucson preta novinha em folha, Manuela, Artur e Inã, ciceroneada pelas motos do Nós, chegamos.
O velho Campinho com seu palco improvisado, lotado. De familias, crianças, velhos, jovens, bebês. Uma festa onde a comunidade é a estrela, no palco e na platéia.
- “Dona Maria a senhora quer macarrão?”
- “A mãe de camiseta branca, lá em cima, olha a comidinha para o bebê!”
- “O que é a coisa mais importante??/ Não ouvi? Mais alto! O que é a coisa mais importante? A?? Leitura, minha gente! Estudar é importante, mas ler é mais ainda!”
E a criançada vai ao delirio, com os brindes, os slogans, as brincadeiras.
Gênio do palco e da vida, Guti é a alma leve e firme que ensina sem querer ensinar, fala de respeito, de educação, de amor ao próximo, de cuidar dos deveres dos filhos, divertindo, fazendo rir.
Os números de palco são impagáveis. Uma versão comunitária do Chacrinha, onde os atores do Nós do Morro se revezam com os talentos da comunidade. Adilson,do salão, o Nescau, com sua drag perfeita, cheia de charme e ritmo, envolta em plumas e paetês, JB, grande dançarino de todos os ritmos, a garotada do Panteras e Pérolas Negras, do samba do Arte Café, os berimbaus de Mestre Peixinho, da Senzala entre brindes, números infantis, piadas ingênuas e ajudantes de palco vestidas a caráter.
Um show de glamour, de civilidade, de alegria e respeito em um dos lugares onde o Rio de Janeiro é visto em todo o seu esplendor, entre o mar e a montanha. Onde a comunidade se encontra para festejar uma noite de diversão e criatividade, protagonista de um espetáculo a céu aberto, encantado pela alma de um artista incansável,
25/06/2010
“O pensamento é triste; o amor, insuficiente;
e eu quero sempre mais do que vem nos milagres.
Deixo que a terra me sustente:
guardo o resto para mais tarde“.
Cecilia Meireles
12/05/2010
Hoje foi um dia especial! Entrei na Rede de Empreendedores Sociais da Ashoka (www.ashoka.org), como Fellow e pude fazer um flash back da minha trajetória. O processo de seleção é tão minucioso que leva a isso. Agora estou aqui em mais um quarto de hotel, esperando para me encontrar com os participantes da mesa sobre comunicação e marketing que acontece amanhã na Conferência do Ethos, olhando para a estatueta de ferro com a árvore da Ashoka.
As vezes, coisas pequenas fazem um enorme sentido, e essa é uma delas prá mim.
No meio das coisas e das relações diversas que atuo, é um alívio sentir que faz algum sentido, não só prá mim, mas para um grupo de pessoas, o caminho que escolhi. Nas empresas, nas ongs, nas organizações internacionais, lidamos com gente, com pessoas, e é elas, e não as instituições que são agente de mudança. Cada um desses espaços faz parte de um continuum, de uma rede invisível onde ideias podem prosperar, por isso apostar na inovação, na criatividade parece obvio, mas não é. Exige um grande despreendimento, e pessoas como Bill Drayton, fundador da Ashoka, tornaram essa escolha, em realidade para milhares de individuos no mundo. Fazer parte dessa teia, é super bacana. Me enriquece, e me inspira.
23/04/2010
25/03/2010
” Sou o que quero ser, porque possuo uma vida e nela só tenho uma chance de fazer o que quero. Tenho felicidade o bastante para fazê-la doce, dificuldades para fazê-la forte,
tristeza para fazê-la humana e esperança suficiente para fazê-la feliz.
As pessoas mais felizes não tem as melhores coisas, elas sabem fazer o melhor
das oportunidades que aparecem em seus caminhos”.
Clarice Lispector
18/03/2010
Ontem tive uma experiência imprevisível e, talvez por isso, tão gratificante. Fui à Vitória, Espírito Santo, na segunda-feira para mais uma etapa do trabalho que estou desenvolvendo junto à Secretaria do Estado da Cultura, desde agosto passado. No intervalo, almoçando com a Dayse (secretária), o Erlon e a Vania, fomos visitar a montagem da exposição do Rembrandt no Museu de Arte, que abre hoje, quinta, 18. Quem nos recebeu foi o próprio diretor adjunto do Museu Rembrandt em Amsterdã, Michiel Kersten. Poucas vezes, e de forma tão informal e tranquila, aprendi tanto em tão pouco tempo.
O estilo, as técnicas de desenho e gravura em chapas de cobre, a linguagem artística que busca reinterpretar uma época que ainda buscava o ideal de beleza ( em especial da figura feminina), tudo foi sendo didaticamente revelado por esse holandês de fala mansa e paixão pela arte de Rembrandt. Fiquei deslumbrada com esse momento de puro deleite estético em uma tarde que não prometia nada instigante.
A vida não é boa?
Foi um momento de celebração, e ao contrário do previsível, a Conferência Nacional de Cultura que quinta passada (11 a 14 de março) foi organizada. Sempre desconfio desses momentos onde se junta uma multidão para falar de temas abstratos, muitas vezes alheios ao cotidiano das pessoas. Mas como as ideias foram feitas para serem superadas, vamos lá, dou a mão a palmatória. Milhares de artistas, produtores, gestores e pensadores da cultura se reuniram em Brasilia na semana passada para celebrarem juntos um movimento que ampliou a representatividade simbólica desse país, que botou outros atores em cena que juntou maracatu, samba de raiz e arte conceitual. Ainda não temos a exata dimensão do que esse momento vai representar para o futuro das artes e da cultura no Brasil, mas ele fez diferença em nossa história recente. Uma baita diferença.
No debate que participei (onde falei sobre memória e transformação) me vi discutindo ideias com um repentista do nordeste, e me emocionei. Tchê! eu segurei as lágrimas, foi um momento lindo! Poetas de todas as linguagens conversando sobre o reencantamento do mundo, o dia que o espírito tomou conta do cabloco contador. Esses momentos mágicos superaram em muito os discursos políticos um tanto messiânicos, que ainda vêem o mundo pela ótica da disputa e do enfrentamento.
Preferi viajar na magia dos índios que celebraram o momento com suas danças e cantos, rever os amigos de longa data que estavam todos felizes de estarem ali compartilhando desses momentos mágicos. Acolhendo a diversidade, o espírito de alegria que marcou esse espaço. Não fiquei para aquilo que imagino, deve ter sido o pior, as plenárias e assembléias, onde as ideias e sonhos tem que ser enquadrados em ideologias e propostas muitas vezes maniqueístas.
Saí na hora certa para entender que a varinha espiritual transcendente do artista Gil marcou uma época para a cultura desse país. O espírito aberto onde reside a magia inovadora da gente brasileira. Sem ufanismo, senti orgulho de participar dessa história e ser dessa terra.
09/03/2010
“… recria tua vida,
sempre, sempre.
remove pedras
e planta roseiras
e faz doces.
Recomeça.”
(Cora Coralina
03/03/2010

Desde o final do ano passado tenho visitado vários espaços dedicado às artes no Brasil. Minha proposta é ouvir a concepção do trabalho de cada um, sentir os espaços no seu dia a dia, fruir a programação e tentar entender a diversidade do que vem sendo feito nessa área. Estive em vários lugares no Brasil, na Espanha, na Colombia, na Argentina, Chile. No Museu da Língua Portuguesa (www.museudalinguaportuguesa.org.br) fui presenteada com uma conversa franca e aberta com o Sartini e renovei minhas ideias sobre política de atendimento e gestão de repertórios. Em Inhotim (www.inhotim.org.br) reconheci a importância de se dedicar mais espaços para produção artística contemporânea de qualidade - a obra, o artista e seu processo criativo particular - respeitando a especificidade dessa fruição pelo espectador. Inhotim mostra um caminho e aponta para a necessidade de investirmos mais nesse território, onde há uma imensa qualidade artística e pouco investimento que garanta as boas condições de produção e a qualidade de fruição. Ontem fui a Maré conhecer o Centro de Artes, coordenado pela coreógrafa Lia Rodrigues, e os espaços da REDES da Maré (www.redesdamare.org.br), liderado pela Eliane de Souza e, na area de cultura, pela Sílvia Soter. Um trabalho sério e consistente que ajuda a desarticular a ideia de que arte e cultura promovidas em territórios comunitários devem ser guiadas pelos indicadores de violência e vulnerabilidade. Nada disso, afirmam as duas. Aula de dança e música, ou programação de qualidade devem ser oferecidas para todos. Outra coisa é profissionalizar em arte ou apoiar a criação de artistas. Cada coisa em seu lugar, e é nessa distinção e sobriedade que avançaremos.
Em setembro, em Belo Horizonte, teremos um grande encontro internacional para discutir espaços culturais da qual sou curadora. Será uma oportunidade de partirmos para uma discussão de tendências, ideias e olhares que possam promover experiências e vivências de significado para o artista, o criador, e o espectador.
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